
O aumento de custos virou a regra, não a exceção. Na pesquisa global da ACCA e do IMA com contadores e CFOs, divulgada em outubro de 2026, quase 7 em cada 10 profissionais relataram custos operacionais em alta no terceiro trimestre. Entre os CFOs, o número chega a 82%.
Para a pequena e média empresa brasileira, isso tem um efeito silencioso. O custo sobe aos poucos, o preço fica parado e a margem some antes de o problema aparecer no resultado do mês. Quando aparece, o caixa já está apertado.
Resumo: aumento de custos em cinco pontos
- É global. 82% dos CFOs ouvidos pela ACCA e pelo IMA viram custos maiores no 3º trimestre de 2026.
- Os juros seguem altos no Brasil. A Selic está em 13,75% ao ano desde 16/09/2026, mesmo depois de cinco cortes.
- O cliente atrasa mais. A inadimplência das empresas bateu recorde de 9,2 milhões de CNPJs em julho de 2026, segundo a Serasa Experian.
- A margem cai antes do lucro. Sem margem de contribuição por produto ou serviço, o aumento de custos só aparece tarde.
- O remédio é rotina. Seis indicadores mensais mostram onde agir: margem, preço, prazo de recebimento, inadimplência, capital de giro e projeção de caixa.
O que a pesquisa mostrou sobre o aumento de custos
A ACCA (associação global de contadores) e o IMA (Institute of Management Accountants) fazem a cada trimestre a Global Economic Conditions Survey. É um termômetro de quem fecha as contas das empresas no mundo todo. Os destaques do 3º trimestre de 2026 sobre o aumento de custos e o ambiente de negócios:
| Indicador | Resultado no 3º tri/2026 |
|---|---|
| Profissionais que relataram aumento de custos operacionais | quase 70% |
| CFOs que relataram aumento de custos | 82% |
| Esperam alta de juros nos próximos 3 meses | quase 50% (eram 42% no 2º tri) |
| Principal risco apontado | pressões econômicas (24%) |
| Segundo risco | instabilidade geopolítica (18%) |
| Novos pedidos | um pouco acima da média histórica |
| Investimento e emprego | pequena melhora, ainda abaixo da média |
Fonte: ACCA, GECS Q3 2026.
O economista-chefe da ACCA, Jonathan Ashworth, resumiu o quadro: a economia mostrou resiliência, mas os riscos de piora continuam presentes. Energia, inflação e juros pressionam de um lado. Do outro, a demanda segura as vendas.
O aumento de custos no Brasil: juros e inadimplência
Aqui o cenário tem dois agravantes.
Juros. O Copom cortou a Selic cinco vezes em 2026, mas ela ainda está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro. A próxima reunião está prevista para novembro. Capital de giro financiado no banco continua caro.
Inadimplência. Em julho de 2026, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, o maior número da série da Serasa Experian. As dívidas somavam R$ 238,6 bilhões. Micro e pequenas empresas eram 8,7 milhões desse total. Minas Gerais era o segundo estado com mais CNPJs negativados, com 915 mil empresas.
Para a PME, isso significa custo maior na compra e dinheiro mais lento na venda. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, observou que ainda não houve mudança estrutural nas condições financeiras, apesar dos cortes da Selic.
Como o aumento de custos come a margem antes de aparecer no resultado
O resultado do mês mistura tudo: produtos que dão lucro, serviços que empatam e clientes que pagam com atraso. Por isso o aumento de custos demora a aparecer. Quando o lucro cai, a margem já vinha caindo há meses.
Um exemplo simples
Uma oficina vende um serviço por R$ 1.000. As peças e a mão de obra direta custam R$ 600. Sobram R$ 400 de margem de contribuição, ou 40%.
| Situação | Preço | Custo variável | Margem de contribuição |
|---|---|---|---|
| Antes | R$ 1.000 | R$ 600 | R$ 400 (40%) |
| Custo sobe 10%, preço parado | R$ 1.000 | R$ 660 | R$ 340 (34%) |
| Preço ajustado para manter os R$ 400 | R$ 1.060 | R$ 660 | R$ 400 (37,7%) |
Um aumento de custos de 10% derrubou 15% da margem em reais. Se as despesas fixas forem de R$ 30 mil por mês, a empresa precisava de 75 serviços para empatar. Com a margem de R$ 340, passa a precisar de 89. São 14 serviços a mais só para ficar no zero.
O prazo de recebimento piora a conta
Agora some o atraso do cliente. Se o prazo médio de recebimento passa de 30 para 45 dias e o de pagamento a fornecedores continua em 30, a empresa financia o cliente por 15 dias a mais. Esse dinheiro sai do caixa ou vem do banco, com a Selic em 13,75%.
É assim que o aumento de custos vira problema de capital de giro: a empresa vende, mas o dinheiro chega depois e menor.
Onde o aumento de custos costuma se esconder
- Reajuste de fornecedor aplicado sem revisão da tabela de preços.
- Frete, energia e combustível lançados como despesa geral, sem atribuir ao produto.
- Hora extra e retrabalho que não entram no custo do serviço.
- Descontos concedidos para fechar venda, sem controle por vendedor.
- Tarifas bancárias e juros de antecipação de recebíveis.
Como conversar com o cliente sobre o reajuste
Reajustar preço não precisa custar o cliente. Avise com antecedência, de 30 a 60 dias, e explique o motivo com fatos: insumos, frete, energia ou mão de obra. Mostre o que continua igual no serviço e, se possível, ofereça uma condição de transição, como manter o preço antigo para pedidos fechados até uma data.
Cliente que entende a conta tende a ficar. O que afasta é o reajuste sem aviso, aplicado direto na nota. E reajuste feito todo ano, em data conhecida, pesa menos que um aumento grande depois de três anos parado.
Seis indicadores para enfrentar o aumento de custos
Não é preciso um sistema caro. É preciso olhar os mesmos números todo mês, na mesma ordem.
| Indicador | Como calcular | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Margem de contribuição por produto ou serviço | (preço menos custos variáveis) dividido pelo preço | queda por dois meses seguidos |
| Índice de reajuste de preços | último reajuste da tabela comparado ao aumento de custos do período | custo subiu mais que o preço |
| Prazo médio de recebimento (PMR) | contas a receber dividido pelas vendas a prazo do mês, vezes 30 | sobe sem mudança na política de vendas |
| Inadimplência | títulos vencidos há mais de 30 dias dividido pelo total a receber | acima do histórico da empresa |
| Necessidade de capital de giro | contas a receber mais estoques menos fornecedores | cresce mais rápido que as vendas |
| Projeção de caixa de 13 semanas | entradas e saídas previstas, semana a semana | saldo negativo em alguma semana |
O que fazer quando o aumento de custos acende o sinal
- Reprecificar com critério. Ajuste primeiro os itens de margem baixa e alto volume. Use a margem de contribuição, não o preço do concorrente, como piso.
- Renegociar compras. Compare fornecedores, prazos e volumes. Ganhar 15 dias de prazo de pagamento pode valer mais que um desconto pequeno.
- Cobrar com rotina. Lembrete antes do vencimento, contato no dia seguinte e régua de cobrança definida. Cliente que atrasa sempre precisa de outra condição de venda.
- Cortar o custo que não volta em venda. Revise contratos, assinaturas e despesas fixas a cada trimestre.
- Antecipar recebíveis só com conta feita. Compare o custo da antecipação com o custo de ficar sem caixa.
- Rever o regime tributário. Com a Reforma Tributária, a carga e o crédito de IBS e CBS também entram no preço.
Perguntas frequentes sobre aumento de custos
Como saber se o aumento de custos está comendo minha margem?
Calcule a margem de contribuição de cada produto ou serviço todo mês. Se ela cai dois meses seguidos sem mudança no preço, o custo está subindo mais que a receita.
Devo repassar todo o aumento de custos para o preço?
Nem sempre. Comece pelos itens de margem mais baixa e maior volume. Em outros, a saída pode ser renegociar a compra ou mudar o mix de vendas.
Com a Selic caindo, o problema não diminui?
Os cortes ajudam, mas a Selic ainda está em 13,75% ao ano. O crédito para capital de giro continua caro, e a inadimplência das empresas está em nível recorde.
Qual o primeiro indicador para acompanhar?
A projeção de caixa de 13 semanas. Ela mostra com antecedência a semana em que o dinheiro pode faltar e dá tempo para agir.
Pequena empresa precisa de controladoria?
Precisa de controle. A controladoria organiza os números em indicadores simples e mensais, no tamanho do negócio.
Como a Quatro ajuda a enfrentar o aumento de custos
No BPO financeiro, a Quatro organiza contas a pagar, contas a receber, cobrança e conciliação. É a base para medir prazo de recebimento, inadimplência e caixa com número real.
Na controladoria, transformamos esses dados em margem por produto ou serviço, necessidade de capital de giro e projeção de caixa. A cada mês, você sabe onde houve aumento de custos e o que fazer com o preço.
Para transportadoras, veja também o artigo sobre capital de giro para transportadoras.
Fontes
- ACCA, Global Economic Conditions Survey, 3º trimestre de 2026
- Serasa Experian, inadimplência das empresas em julho de 2026
- Decisão do Copom de 16/09/2026
Cristiano Cerqueira, Contador | Controller
CRC/MG 089073/O, Quatro Gestão Contábil, Belo Horizonte/MG
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