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Contabilidade e Controladoria

Aumento de custos: como proteger a margem e o caixa da sua empresa

Por Cristiano Cerqueira · · 8 min de leitura
Aumento de custos: como proteger a margem e o caixa da PME

O aumento de custos virou a regra, não a exceção. Na pesquisa global da ACCA e do IMA com contadores e CFOs, divulgada em outubro de 2026, quase 7 em cada 10 profissionais relataram custos operacionais em alta no terceiro trimestre. Entre os CFOs, o número chega a 82%.

Para a pequena e média empresa brasileira, isso tem um efeito silencioso. O custo sobe aos poucos, o preço fica parado e a margem some antes de o problema aparecer no resultado do mês. Quando aparece, o caixa já está apertado.

Resumo: aumento de custos em cinco pontos

  • É global. 82% dos CFOs ouvidos pela ACCA e pelo IMA viram custos maiores no 3º trimestre de 2026.
  • Os juros seguem altos no Brasil. A Selic está em 13,75% ao ano desde 16/09/2026, mesmo depois de cinco cortes.
  • O cliente atrasa mais. A inadimplência das empresas bateu recorde de 9,2 milhões de CNPJs em julho de 2026, segundo a Serasa Experian.
  • A margem cai antes do lucro. Sem margem de contribuição por produto ou serviço, o aumento de custos só aparece tarde.
  • O remédio é rotina. Seis indicadores mensais mostram onde agir: margem, preço, prazo de recebimento, inadimplência, capital de giro e projeção de caixa.

O que a pesquisa mostrou sobre o aumento de custos

A ACCA (associação global de contadores) e o IMA (Institute of Management Accountants) fazem a cada trimestre a Global Economic Conditions Survey. É um termômetro de quem fecha as contas das empresas no mundo todo. Os destaques do 3º trimestre de 2026 sobre o aumento de custos e o ambiente de negócios:

IndicadorResultado no 3º tri/2026
Profissionais que relataram aumento de custos operacionaisquase 70%
CFOs que relataram aumento de custos82%
Esperam alta de juros nos próximos 3 mesesquase 50% (eram 42% no 2º tri)
Principal risco apontadopressões econômicas (24%)
Segundo riscoinstabilidade geopolítica (18%)
Novos pedidosum pouco acima da média histórica
Investimento e empregopequena melhora, ainda abaixo da média

Fonte: ACCA, GECS Q3 2026.

O economista-chefe da ACCA, Jonathan Ashworth, resumiu o quadro: a economia mostrou resiliência, mas os riscos de piora continuam presentes. Energia, inflação e juros pressionam de um lado. Do outro, a demanda segura as vendas.

O aumento de custos no Brasil: juros e inadimplência

Aqui o cenário tem dois agravantes.

Juros. O Copom cortou a Selic cinco vezes em 2026, mas ela ainda está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro. A próxima reunião está prevista para novembro. Capital de giro financiado no banco continua caro.

Inadimplência. Em julho de 2026, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, o maior número da série da Serasa Experian. As dívidas somavam R$ 238,6 bilhões. Micro e pequenas empresas eram 8,7 milhões desse total. Minas Gerais era o segundo estado com mais CNPJs negativados, com 915 mil empresas.

Para a PME, isso significa custo maior na compra e dinheiro mais lento na venda. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, observou que ainda não houve mudança estrutural nas condições financeiras, apesar dos cortes da Selic.

Como o aumento de custos come a margem antes de aparecer no resultado

O resultado do mês mistura tudo: produtos que dão lucro, serviços que empatam e clientes que pagam com atraso. Por isso o aumento de custos demora a aparecer. Quando o lucro cai, a margem já vinha caindo há meses.

Um exemplo simples

Uma oficina vende um serviço por R$ 1.000. As peças e a mão de obra direta custam R$ 600. Sobram R$ 400 de margem de contribuição, ou 40%.

SituaçãoPreçoCusto variávelMargem de contribuição
AntesR$ 1.000R$ 600R$ 400 (40%)
Custo sobe 10%, preço paradoR$ 1.000R$ 660R$ 340 (34%)
Preço ajustado para manter os R$ 400R$ 1.060R$ 660R$ 400 (37,7%)

Um aumento de custos de 10% derrubou 15% da margem em reais. Se as despesas fixas forem de R$ 30 mil por mês, a empresa precisava de 75 serviços para empatar. Com a margem de R$ 340, passa a precisar de 89. São 14 serviços a mais só para ficar no zero.

O prazo de recebimento piora a conta

Agora some o atraso do cliente. Se o prazo médio de recebimento passa de 30 para 45 dias e o de pagamento a fornecedores continua em 30, a empresa financia o cliente por 15 dias a mais. Esse dinheiro sai do caixa ou vem do banco, com a Selic em 13,75%.

É assim que o aumento de custos vira problema de capital de giro: a empresa vende, mas o dinheiro chega depois e menor.

Onde o aumento de custos costuma se esconder

  • Reajuste de fornecedor aplicado sem revisão da tabela de preços.
  • Frete, energia e combustível lançados como despesa geral, sem atribuir ao produto.
  • Hora extra e retrabalho que não entram no custo do serviço.
  • Descontos concedidos para fechar venda, sem controle por vendedor.
  • Tarifas bancárias e juros de antecipação de recebíveis.

Como conversar com o cliente sobre o reajuste

Reajustar preço não precisa custar o cliente. Avise com antecedência, de 30 a 60 dias, e explique o motivo com fatos: insumos, frete, energia ou mão de obra. Mostre o que continua igual no serviço e, se possível, ofereça uma condição de transição, como manter o preço antigo para pedidos fechados até uma data.

Cliente que entende a conta tende a ficar. O que afasta é o reajuste sem aviso, aplicado direto na nota. E reajuste feito todo ano, em data conhecida, pesa menos que um aumento grande depois de três anos parado.

Seis indicadores para enfrentar o aumento de custos

Não é preciso um sistema caro. É preciso olhar os mesmos números todo mês, na mesma ordem.

IndicadorComo calcularSinal de alerta
Margem de contribuição por produto ou serviço(preço menos custos variáveis) dividido pelo preçoqueda por dois meses seguidos
Índice de reajuste de preçosúltimo reajuste da tabela comparado ao aumento de custos do períodocusto subiu mais que o preço
Prazo médio de recebimento (PMR)contas a receber dividido pelas vendas a prazo do mês, vezes 30sobe sem mudança na política de vendas
Inadimplênciatítulos vencidos há mais de 30 dias dividido pelo total a receberacima do histórico da empresa
Necessidade de capital de girocontas a receber mais estoques menos fornecedorescresce mais rápido que as vendas
Projeção de caixa de 13 semanasentradas e saídas previstas, semana a semanasaldo negativo em alguma semana

O que fazer quando o aumento de custos acende o sinal

  1. Reprecificar com critério. Ajuste primeiro os itens de margem baixa e alto volume. Use a margem de contribuição, não o preço do concorrente, como piso.
  2. Renegociar compras. Compare fornecedores, prazos e volumes. Ganhar 15 dias de prazo de pagamento pode valer mais que um desconto pequeno.
  3. Cobrar com rotina. Lembrete antes do vencimento, contato no dia seguinte e régua de cobrança definida. Cliente que atrasa sempre precisa de outra condição de venda.
  4. Cortar o custo que não volta em venda. Revise contratos, assinaturas e despesas fixas a cada trimestre.
  5. Antecipar recebíveis só com conta feita. Compare o custo da antecipação com o custo de ficar sem caixa.
  6. Rever o regime tributário. Com a Reforma Tributária, a carga e o crédito de IBS e CBS também entram no preço.

Perguntas frequentes sobre aumento de custos

Como saber se o aumento de custos está comendo minha margem?
Calcule a margem de contribuição de cada produto ou serviço todo mês. Se ela cai dois meses seguidos sem mudança no preço, o custo está subindo mais que a receita.

Devo repassar todo o aumento de custos para o preço?
Nem sempre. Comece pelos itens de margem mais baixa e maior volume. Em outros, a saída pode ser renegociar a compra ou mudar o mix de vendas.

Com a Selic caindo, o problema não diminui?
Os cortes ajudam, mas a Selic ainda está em 13,75% ao ano. O crédito para capital de giro continua caro, e a inadimplência das empresas está em nível recorde.

Qual o primeiro indicador para acompanhar?
A projeção de caixa de 13 semanas. Ela mostra com antecedência a semana em que o dinheiro pode faltar e dá tempo para agir.

Pequena empresa precisa de controladoria?
Precisa de controle. A controladoria organiza os números em indicadores simples e mensais, no tamanho do negócio.

Como a Quatro ajuda a enfrentar o aumento de custos

No BPO financeiro, a Quatro organiza contas a pagar, contas a receber, cobrança e conciliação. É a base para medir prazo de recebimento, inadimplência e caixa com número real.

Na controladoria, transformamos esses dados em margem por produto ou serviço, necessidade de capital de giro e projeção de caixa. A cada mês, você sabe onde houve aumento de custos e o que fazer com o preço.

Para transportadoras, veja também o artigo sobre capital de giro para transportadoras.

Fontes

Cristiano Cerqueira, Contador | Controller
CRC/MG 089073/O, Quatro Gestão Contábil, Belo Horizonte/MG

Quer saber quanto o aumento de custos já tirou da sua margem? Fale com a Quatro pelo WhatsApp ou pelo formulário de contato.

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